segunda-feira, 21 de setembro de 2026

São Pio de Pietrelcina - santo do dia - 23.09.2026

Quarta-feira, 23 de Setembro de 2026
São Pio de Pietrelcina, presbítero, Memória
25ª Semana do Tempo Comum




São Pio de Pietrelcina


Biografia de São Pio de Pietrelcina

Em São Pio de Pietrelcina, a existência tornou-se uma entrega silenciosa ao mistério de Cristo, até que cada instante de sua vida encontrasse sua plenitude na presença de Deus.

  São Pio de Pietrelcina, no século Francesco Forgione, nasceu em 25 de maio de 1887, em Pietrelcina, na região de Benevento, Itália. Era filho de Grazio Forgione e Maria Giuseppa De Nunzio. Foi batizado no dia seguinte ao nascimento e recebeu o nome Francesco. Esses dados pertencem ao registro histórico de sua vida e permitem reconhecer, desde sua origem familiar, o ambiente concreto no qual começou a amadurecer sua vocação cristã. As fontes eclesiais preservam os nomes de seus pais, mas não oferecem elementos suficientes para reconstruir em todos os seus detalhes a vida familiar cotidiana de sua infância.

  Sua infância transcorreu em Pietrelcina, onde aprendeu as primeiras formas de oração e de participação na vida da Igreja. Mais tarde, o Papa Francisco recordaria que foi naquele lugar que Francesco Forgione começou sua longa trajetória humana e espiritual, aprendendo a rezar e aprofundando seu seguimento de Cristo. A vocação que se manifestaria posteriormente não surgiu como uma ruptura com sua origem, mas como um amadurecimento progressivo daquilo que havia sido recebido em sua interioridade.

  Aos 12 anos, recebeu a Confirmação e fez sua Primeira Comunhão. Esses acontecimentos, considerados dentro da tradição cristã, não representam apenas etapas exteriores de uma formação religiosa. Para Francesco, a fé foi gradualmente tornando-se o centro de uma existência orientada para Cristo. A interioridade começou a adquirir uma direção mais definida, e aquilo que havia sido recebido na infância passou a exigir uma resposta pessoal mais profunda.

  Aos 16 anos, em 6 de janeiro de 1903, ingressou no noviciado dos Frades Menores Capuchinhos em Morcone. Em 22 de janeiro daquele mesmo ano, recebeu o hábito franciscano e passou a chamar-se Frei Pio. O novo nome não apagava Francesco, mas expressava a entrada em uma forma nova de existência, marcada pela consagração, pela oração, pela penitência e pela configuração progressiva a Cristo.

  O período de formação capuchinha foi decisivo. A vida religiosa exigia disciplina interior, obediência, oração, estudo e perseverança. A formação intelectual e teológica recebida durante esses anos não permaneceu separada de sua experiência espiritual. Em São Pio, conhecimento e oração foram progressivamente unidos pela experiência concreta da fé. A verdade cristã não era para ele apenas algo a ser compreendido, mas uma realidade diante da qual a própria pessoa deveria se deixar formar.

  Depois do noviciado, fez a profissão dos votos simples e, em 27 de janeiro de 1907, a profissão solene. A consagração religiosa tornou-se, assim, uma decisão permanente de entrega. A pobreza, a castidade e a obediência não eram compreendidas apenas como normas exteriores, mas como caminhos de conformação da existência a Deus. O ser humano, ao acolher uma vocação, descobre que sua vida pode adquirir unidade quando aquilo que pensa, deseja, contempla e realiza converge para uma mesma origem.

  São Pio foi ordenado sacerdote em 10 de agosto de 1910, em Benevento. O sacerdócio introduziu sua vida em uma dimensão ainda mais profunda de serviço à Igreja. Contudo, sua saúde frágil fez com que permanecesse junto à família durante alguns períodos até 1916. Essa permanência não interrompeu sua vocação. Ao contrário, tornou-se parte de uma existência na qual a entrega a Deus não dependia de circunstâncias exteriores favoráveis, mas de uma disposição interior continuamente renovada.

  Em setembro de 1916, foi enviado para o convento de San Giovanni Rotondo. Ali permaneceria até sua morte. Aquele lugar tornou-se o cenário concreto de grande parte de sua missão sacerdotal e espiritual. O espaço exterior permaneceu relativamente estável, mas a profundidade de sua vida interior continuou a amadurecer. O que se transformava não era simplesmente sua situação histórica, mas a maneira pela qual cada instante era recebido como ocasião de encontro com Deus.

  Sua vida sacerdotal encontrou expressão especialmente na celebração da Eucaristia, na reconciliação sacramental e na direção espiritual. Pessoas de diferentes lugares começaram a procurá-lo em número crescente. A ele chegavam aqueles que desejavam confessar-se, buscar orientação espiritual, participar da Missa ou simplesmente encontrar uma palavra que os ajudasse a retornar ao centro de sua existência. Seu ministério tornou-se uma forma concreta de conduzir as pessoas para Cristo.

  A Eucaristia ocupava lugar central em sua espiritualidade. Para São Pio, a celebração da Missa não era uma ação exterior entre outras, mas o centro vivo de sua entrega sacerdotal. Nela, o mistério de Cristo se tornava presença sacramental, e sua própria existência sacerdotal encontrava sua orientação mais profunda. O altar reunia aquilo que sua vida inteira procurava realizar, uma entrega de si mesmo a Deus em união com o sacrifício de Cristo.

  A confissão também ocupou uma parte extraordinariamente intensa de seu ministério. São Pio passou longos períodos atendendo penitentes, acompanhando pessoas no reconhecimento de suas faltas e no retorno à vida da graça. Para ele, a conversão não consistia simplesmente em corrigir comportamentos exteriores. Tratava-se de uma reorientação interior da pessoa diante de Deus. O coração precisava retornar à verdade de sua origem para que a existência recuperasse sua unidade.

  Sua direção espiritual seguia a mesma orientação. Ele procurava conduzir as pessoas para uma relação mais profunda com Cristo, insistindo na oração, na sinceridade interior, na penitência e na perseverança. A santidade, em sua vida, não apareceu como uma realidade distante da condição humana. Manifestou-se através de uma fidelidade cotidiana, na qual cada instante era recebido como oportunidade de permanecer diante de Deus.

  A espiritualidade de São Pio foi profundamente marcada pela Cruz. A Igreja reconheceu nela o centro de sua vida e de seu apostolado. Sua união com Cristo Crucificado não significava procurar o sofrimento por si mesmo, mas acolhê-lo dentro do mistério cristão e oferecê-lo em união com Cristo. Sua existência foi progressivamente configurada por essa entrega, até que sofrimento, oração e sacerdócio passaram a formar uma única orientação interior.

  Os sinais da Paixão de Cristo que foram associados à sua vida marcaram profundamente sua história e atraíram grande atenção. A Igreja, porém, ao reconhecer sua santidade, não a reduziu a manifestações extraordinárias. O testemunho oficial destacou sua oração, seu espírito de sacrifício, sua dedicação às almas, sua obediência, sua pobreza e sua vida sacerdotal. O extraordinário, quando presente, permanecia subordinado àquilo que era essencial, sua união com Cristo.

  São Pio também viveu intensamente a obediência à Igreja e aos seus superiores religiosos. Mesmo quando recebeu determinações que lhe foram difíceis, procurou permanecer fiel àquilo que havia assumido em sua consagração. Essa dimensão revela uma característica importante de sua espiritualidade. A maturidade interior não consistia em fazer da própria percepção a medida de todas as coisas, mas em aprender a permanecer diante de Deus com humildade, recebendo a realidade concreta da vocação e permitindo que ela formasse progressivamente sua pessoa.

  Sua relação com a pobreza também possuía uma profundidade espiritual. O desprendimento dos bens, do conforto e das honras correspondia à busca de uma existência menos ocupada consigo mesma. O essencial não era possuir mais, mas permanecer unido àquilo que dava sentido à sua consagração. Assim, a pobreza evangélica tornava-se uma forma de concentração interior, na qual a pessoa aprende a reconhecer que sua plenitude não depende da acumulação exterior.

  Ao mesmo tempo, São Pio demonstrava grande consciência de sua própria fragilidade. Não se apresentava como alguém que tivesse alcançado a santidade por suas próprias forças. Sua linguagem espiritual reconhecia sua pequenez diante da grandeza da graça. Essa consciência não o conduzia à esterilidade, mas à confiança em Deus. Quanto mais percebia a distância entre sua fragilidade e a santidade à qual era chamado, mais profundamente compreendia que sua vida precisava permanecer aberta à ação divina.

  A oração era o centro silencioso de tudo. Seu apostolado, sua celebração da Eucaristia, seu atendimento aos penitentes e sua direção espiritual nasciam de uma vida interior continuamente orientada para Deus. Por isso, diante da admiração que crescia ao seu redor, São Pio procurava permanecer na simplicidade de sua vocação, identificando-se como um pobre frade que rezava.

  Essa simplicidade contém uma profunda compreensão espiritual da existência. O ser humano pode tornar-se conhecido por muitos, mas sua verdade mais profunda permanece naquele espaço interior onde se encontra diante de Deus. São Pio não encontrou sua identidade na fama que surgiu em torno dele. Encontrou-a na relação com Cristo. Assim, aquilo que para muitos era extraordinário permanecia, para ele, subordinado ao essencial.

  Sua missão sacerdotal alcançou também uma dimensão concreta de cuidado. Em San Giovanni Rotondo, esteve ligado à criação da Casa Sollievo della Sofferenza, dedicada ao atendimento dos enfermos, e aos grupos de oração que se espalharam posteriormente. Essas iniciativas não substituíam sua vida contemplativa, mas nasciam dela. A oração que alcança profundidade tende a tornar-se presença concreta, sem perder sua origem interior.

  Os grupos de oração expressavam outra dimensão de sua espiritualidade. A oração não era concebida como um ato isolado, encerrado no instante em que é pronunciado. Ela podia permanecer como uma disposição interior que atravessa a existência. A presença de Deus recebida na oração continuava a formar o coração, tornando cada momento uma possibilidade de retorno à origem e de amadurecimento diante da eternidade.

  A trajetória de São Pio também mostra que a santidade não se desenvolve pela simples passagem dos anos. O tempo cronológico percorre os dias, mas a transformação interior exige uma profundidade diferente. Cada instante pode ser recebido superficialmente ou acolhido diante de Deus. Quando é acolhido assim, ele deixa de ser apenas sucessão e passa a participar de uma realidade mais profunda, na qual a pessoa se torna progressivamente aquilo que é chamada a ser.

  Nesse sentido, a vida de São Pio pode ser contemplada como um longo amadurecimento da presença. O jovem Francesco Forgione, nascido em Pietrelcina, não desapareceu quando recebeu o nome de Frei Pio. Sua história foi sendo integrada em uma vocação mais ampla. A infância, a formação, os votos, o sacerdócio, as enfermidades, a oração, a Eucaristia, o confessionário e os últimos anos de sua vida foram assumindo uma unidade interior.

  Sua existência sacerdotal também revela a relação entre origem e plenitude. A pessoa não alcança sua realização afastando-se daquilo que recebeu como fundamento, mas aprofundando-o. São Pio retornava continuamente a Cristo, à Igreja, à Eucaristia, à oração e à Cruz. Nesses centros de sua vida espiritual, encontrava a origem que sustentava sua missão e a direção para a qual sua existência se encaminhava.

  Em 23 de setembro de 1968, São Pio morreu em San Giovanni Rotondo, aos 81 anos. Sua morte ocorreu depois de uma vida marcada por oração, sofrimento e dedicação sacerdotal. O encerramento de sua existência terrena não foi compreendido pela Igreja como simples desaparecimento, mas à luz da esperança cristã na vida eterna. Aquele que havia orientado sua existência para Cristo chegou ao termo de seu caminho permanecendo unido àquilo que havia constituído o centro de sua vida.

  Depois de sua morte, sua fama de santidade e os relatos de graças atribuídas à sua intercessão cresceram amplamente. A Igreja iniciou o processo canônico, que avançou durante as décadas seguintes. São Pio foi beatificado por João Paulo II em 2 de maio de 1999 e canonizado pelo mesmo pontífice em 16 de junho de 2002. A canonização confirmou solenemente seu reconhecimento pela Igreja como santo.

  Contemplar São Pio é contemplar uma existência na qual o instante não foi tratado como algo vazio entre dois acontecimentos. Cada momento podia tornar-se lugar de encontro com Deus. A eternidade não precisava ser imaginada como uma realidade distante da existência presente, porque a vida cristã já podia acolher, no interior do instante, uma presença que ultrapassa a sucessão dos acontecimentos.

  Sua trajetória também recorda que a interioridade não é isolamento. Quanto mais profundamente São Pio permanecia diante de Deus, mais sua vida sacerdotal se tornava disponível aos outros. O confessionário, o altar, a direção espiritual, a oração e o cuidado dos enfermos não eram realidades separadas de sua contemplação. Eram manifestações exteriores de uma vida que encontrava sua fonte no interior.

  A grandeza espiritual de São Pio não está, portanto, somente nos acontecimentos extraordinários associados à sua existência. Está na unidade que foi sendo formada entre sua fé e sua vida. Ele permitiu que aquilo que recebia de Deus penetrasse progressivamente em sua pessoa, até que oração, sacerdócio, sofrimento, obediência e amor a Cristo se tornassem expressões de uma mesma entrega.

  No fundo dessa existência permanece uma verdade simples. A pessoa encontra sua plenitude quando deixa de fazer de si mesma o centro último e reconhece Deus como origem e destino. São Pio percorreu esse caminho através da oração e da Cruz, não como quem procura fugir da realidade, mas como quem aprende a atravessá-la na presença de Deus.

Orando com São Pio de Pietrelcina

Na presença que transforma

  Senhor, acolhe meu coração
  Forma em mim tua presença
  Conduze-me à plenitude

  Amém

Reflexão sobre a oração

A interioridade diante da presença divina

  A oração começa quando o coração deixa de dispersar-se e retorna ao centro de sua própria existência diante de Deus.
  Nesse retorno, o instante adquire profundidade, porque deixa de ser apenas passagem e torna-se acolhimento da presença divina.
  A presença recebida interiormente não permanece imóvel, mas começa a formar o ser desde sua origem mais profunda.
  Assim como em São Pio, a oração pode tornar-se um caminho de amadurecimento no qual cada momento recebe sentido diante do Eterno.
  A pessoa não precisa possuir tudo para encontrar plenitude, porque sua realização nasce da união com aquilo que verdadeiramente a sustenta.
  Quando Deus ocupa o centro da interioridade, o coração encontra uma ordem que não depende das mudanças exteriores.
  O instante torna-se então lugar de permanência, e a permanência conduz o ser para uma compreensão mais profunda de sua origem.
  Na presença divina, a existência encontra sua unidade e reconhece que sua plenitude está em permanecer unida à fonte de onde procede.

Leia: LITURGIA DA PALAVRA

Leia também:

Primeira Leitura

Segunda Leitura

Salmo

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São Maurício e companheiros - santo do dia - 22.09.2026

 Terça-feira, 22 de Setembro de 2026

25ª Semana do Tempo Comum, Ano Par (II)




São Maurício e companheiros - imagem da interenet


Biografia de São Maurício e companheiros

Uma vida entregue à verdade que permanece além do instante

  São Maurício, cujo nome aparece nas fontes latinas como Mauricius, pertence à memória dos mártires cristãos dos primeiros séculos. Sua figura está ligada à chamada Legião Tebana, uma unidade militar romana tradicionalmente identificada como formada por cristãos provenientes do Egito. A tradição o apresenta como seu chefe, ou primicerius, e situa seu martírio em Agauno, na região que corresponde atualmente a Saint-Maurice, no cantão suíço do Valais. A data exata do acontecimento não pode ser estabelecida com segurança, sendo tradicionalmente situada entre o final do século 3 e o início do século 4.

  Não foram preservados dados históricos seguros sobre o nascimento de Maurício. Não conhecemos com segurança o ano, a cidade ou a região precisa de seu nascimento, assim como não possuímos informações confiáveis sobre seus pais ou sua família de origem. Algumas tradições posteriores desenvolveram detalhes sobre sua procedência, mas esses elementos não podem ser tratados com o mesmo grau de certeza que os dados associados à tradição do martírio. A ausência dessas informações também recorda uma característica própria da memória dos primeiros mártires, na qual a atenção da Igreja se concentrou sobretudo no testemunho de sua fé e na fidelidade manifestada no momento decisivo.

  A tradição o apresenta como cristão e soldado romano. Seu caminho espiritual não chegou até nós por meio de escritos pessoais, tratados teológicos ou ensinamentos sistematicamente registrados. Não sabemos quais mestres o formaram, quais textos leu ou de que maneira desenvolveu sua compreensão intelectual da fé. Por isso, seria incorreto atribuir-lhe uma formação teológica específica que as fontes não conservam. Sua profundidade espiritual é conhecida sobretudo pelo testemunho que a tradição associou ao seu martírio.

  Maurício aparece, assim, diante da história não como autor de uma doutrina, mas como alguém cuja existência adquiriu significado por uma decisão interior. A tradição antiga afirma que a Legião Tebana recebeu uma ordem relacionada ao culto dos deuses romanos e que seus soldados cristãos se recusaram a participar dela. A recusa não é apresentada simplesmente como oposição exterior a uma autoridade, mas como fidelidade àquilo que reconheciam como pertencente à verdade de sua fé. A memória cristã viu nesse gesto a manifestação de uma consciência formada pela pertença a Cristo.

  Entre os companheiros associados a Maurício, a tradição preserva especialmente os nomes de Exupério, Cândido e Vítor. O Martirológio Romano recorda Maurício, Exupério e Cândido como soldados mártires da Legião Tebana e menciona também o veterano Vítor, unido à memória daqueles que deram a vida por Cristo. Dessa maneira, a Igreja não contempla apenas uma figura isolada, mas uma comunhão de testemunhas cuja fidelidade se tornou parte da memória litúrgica cristã.

  A narrativa antiga sobre Agauno é transmitida de modo particularmente importante por Santo Euchério, bispo de Lyon, cuja carta sobre o martírio foi escrita aproximadamente em meados do século 5. Ele afirma ter investigado a tradição existente no próprio lugar e recolhido o testemunho daqueles que conservavam a memória do acontecimento. Sua narrativa constitui uma das principais fontes antigas para a tradição do martírio da Legião Tebana. Ao mesmo tempo, a transmissão posterior contém elementos que foram discutidos pelos historiadores, de modo que é necessário distinguir o núcleo antigo da tradição de seus desenvolvimentos posteriores.

  Essa cautela histórica não diminui a força espiritual da memória de Maurício. Pelo contrário, permite contemplá-la com maior sobriedade. A fé não precisa ser sustentada pela invenção de detalhes que não foram preservados. O que permanece possui sua própria força. O nome de Maurício atravessou os séculos porque a Igreja reconheceu em sua memória uma existência colocada diante de uma verdade que não podia ser reduzida às circunstâncias passageiras de seu tempo.

  A tradição situa o martírio em Agauno, lugar que posteriormente se tornou um importante centro de veneração. Segundo a antiga narrativa, uma basílica foi erguida no local dos mártires durante o episcopado de Teodoro de Octoduro, no século 4. A memória daqueles que haviam morrido por Cristo passou, então, a ser guardada não apenas pela recordação de um acontecimento, mas pela oração da Igreja reunida naquele lugar.

  A história posterior de Agauno revela algo particularmente belo. Séculos depois, o local associado aos mártires tornou-se também centro de uma intensa tradição de oração. No início do século 6, a comunidade monástica ligada ao santuário desenvolveu a prática da laus perennis, a oração contínua por meio da qual diferentes coros se sucediam para que o louvor permanecesse durante o dia e a noite. Assim, a memória daqueles que haviam oferecido sua vida por Cristo passou a estar unida a uma oração que procurava não interromper o louvor.

  Há, nesse desenvolvimento, uma profunda continuidade espiritual. O testemunho de Maurício pertence ao instante decisivo do martírio, mas não permaneceu encerrado naquele instante. Sua memória continuou a gerar oração, silêncio, contemplação e celebração. A existência humana passa, mas aquilo que foi entregue à verdade pode permanecer fecundo muito além da duração visível de uma vida.

  O martírio de Maurício e de seus companheiros pode ser contemplado justamente a partir dessa relação entre o instante e aquilo que permanece. Um momento pode parecer breve diante da extensão de uma vida, mas existem instantes nos quais toda uma existência se revela. O valor espiritual de uma vida não se mede apenas pela quantidade de tempo percorrido, mas pela profundidade com que a pessoa se encontra diante da verdade que reconhece.

  A tradição cristã contempla o mártir como alguém que não permite que a exterioridade determine inteiramente o interior. Diante da exigência contrária à fé, Maurício e seus companheiros são recordados como aqueles que permaneceram unidos àquilo que haviam recebido. Sua memória manifesta que a fidelidade não nasce somente de uma decisão momentânea, mas de uma interioridade que já foi formada pela presença de Deus.

  Nesse sentido, a figura de Maurício não pertence apenas ao passado. Sua memória conduz a uma contemplação do próprio ser humano diante de Deus. Cada pessoa traz em seu interior uma região onde as decisões fundamentais são amadurecidas antes de se tornarem visíveis. É nesse espaço interior que a verdade deixa de ser apenas palavra recebida e passa a tornar-se forma da existência.

  A vida de Maurício também revela a diferença entre possuir uma função e possuir uma finalidade. Ele é lembrado como soldado e chefe militar, mas sua memória cristã não repousa sobre sua posição. O que permanece é o testemunho de sua pertença a Cristo. A função desaparece com o tempo, enquanto a fidelidade pode atravessar gerações quando se torna expressão verdadeira daquilo que habita o interior.

  A tradição dos mártires da Legião Tebana apresenta ainda uma dimensão de comunhão. Maurício não é recordado isoladamente. Com ele permanecem os nomes de companheiros que compartilharam o mesmo destino. Exupério, Cândido, Vítor e os demais mártires aparecem como testemunhas de uma mesma fé. A santidade, nesse testemunho, não é apenas uma realidade individual, mas uma comunhão de pessoas reunidas pela mesma origem e pela mesma esperança em Cristo.

  A Igreja celebra São Maurício e seus companheiros em 22 de setembro. A liturgia conserva sua memória como memória de mártires que, segundo a tradição, foram mortos sob o imperador Maximiano por causa de sua fidelidade a Cristo.

  Contemplar Maurício é contemplar uma existência que encontrou sua medida em algo que não passava. Seu testemunho não oferece uma teoria sobre a eternidade. Ele oferece uma vida que, no momento decisivo, foi orientada por uma realidade que julgava maior do que a própria preservação temporal. Por isso sua memória permanece como uma pergunta silenciosa dirigida ao interior de cada pessoa.

  O que sustenta uma existência quando tudo aquilo que é exterior perde sua força. O que permanece quando as circunstâncias mudam, quando o tempo atravessa os acontecimentos e quando a própria vida se aproxima de seu limite. A memória dos mártires responde não por conceitos, mas por uma presença. Eles são recordados como aqueles que encontraram em Cristo uma realidade suficientemente profunda para receber toda a sua existência.

  A grandeza espiritual de São Maurício não está em detalhes que a história não conseguiu preservar. Está naquilo que a tradição conservou como essencial. Um homem chamado Maurício, unido a seus companheiros, permaneceu fiel à fé cristã até o fim. A partir desse testemunho, gerações de cristãos reconheceram que a vida pode tornar-se lugar de uma entrega que ultrapassa a duração do próprio instante.

  A memória de Maurício continua, assim, voltada para a interioridade. O martírio não é apenas o término de uma vida, mas a revelação daquilo que essa vida havia acolhido. Quando a existência chega ao momento extremo, torna-se visível aquilo que durante muito tempo permaneceu silenciosamente sendo formado no coração.

  É nessa profundidade que a figura de São Maurício permanece viva para a Igreja. Sua história conduz do acontecimento à contemplação, da memória à oração, do instante àquilo que permanece. Seus companheiros recordam que essa fidelidade não foi vivida isoladamente, mas em comunhão. E a tradição de Agauno acrescenta à memória dos mártires o louvor contínuo da Igreja.

  Assim, Maurício e seus companheiros permanecem diante de nós como testemunhas de uma existência reunida em torno de Cristo. Seu testemunho não depende da quantidade de palavras que deles foram conservadas. Basta a simplicidade essencial de uma vida entregue à verdade reconhecida. O que o tempo não conseguiu apagar foi justamente aquilo que a Igreja recebeu como mais profundo, a memória de homens que fizeram de sua própria existência um testemunho de permanência em Deus.

Orando com São Maurício e companheiros

Na presença que permanece

Senhor, habita meu interior
Firma meu coração em Ti
Conduze meus passos à verdade

Amém

Reflexão sobre a oração

Quando o interior encontra sua origem

  A oração começa quando o interior se abre à presença de Deus e reconhece que sua verdadeira profundidade não nasce de si mesmo.

  Pedir que o Senhor habite o interior significa acolher uma presença que não invade, mas sustenta e transforma silenciosamente aquilo que somos.

  O coração firmado em Deus encontra uma direção que não depende da instabilidade das circunstâncias. O instante deixa de ser apenas passagem e torna-se lugar de encontro.

  Quando pedimos que nossos passos sejam conduzidos à verdade, entregamos à presença divina aquilo que em nós ainda precisa amadurecer. A verdade recebida passa a formar interiormente a existência.

  A origem e o destino encontram-se nessa presença. Aquilo que procede de Deus é também aquilo para o qual o coração é atraído quando se torna atento ao sentido mais profundo de sua existência.

  A eternidade não precisa afastar-se do instante para estar presente. Ela pode ser reconhecida na profundidade daquele momento em que o ser se recolhe, escuta e acolhe.

  A oração termina com uma palavra breve, mas plena. Amém não encerra apenas a oração. É uma entrega pela qual o coração consente em permanecer diante daquele que o sustenta.

  Na presença divina, o instante encontra profundidade, a interioridade encontra sua origem e a existência começa a reconhecer a plenitude para a qual foi criada.

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Leia também:

Primeira Leitura

Segunda Leitura

Salmo

Evangelho

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domingo, 20 de setembro de 2026

Apóstolo São Mateus - santo do dia - 21.09.2026

Segunda-feira, 21 de Setembro de 2026
São Mateus, Apóstolo e Evangelista, Festa, Ano A
25ª Semana do Tempo Comum




Apóstolo São Mateus - imagem da internet


Biografia de Apóstolo São Mateus

Do homem que estava sentado àquele que se levantou para seguir Cristo

  São Mateus, chamado no Novo Testamento pelo nome de Mateus e tradicionalmente identificado com Levi, permanece como uma das figuras mais silenciosas entre os Apóstolos. Sua presença nos Evangelhos não é extensa, mas o episódio de seu chamado contém uma profundidade singular. Ele estava sentado junto ao lugar de cobrança dos impostos quando Jesus passou, olhou para ele e lhe disse que o seguisse. Mateus levantou-se e o seguiu. Nesse gesto breve encontra-se o núcleo de toda a sua existência apostólica, pois uma vida aparentemente estabelecida foi alcançada por uma presença que lhe revelou uma direção nova.

  Não possuímos dados historicamente seguros sobre a data de seu nascimento. Também não foi preservado com certeza o lugar exato onde nasceu. As fontes antigas o apresentam como ligado à Galileia e, particularmente, a Cafarnaum, onde exercia sua atividade como cobrador de impostos. Assim, qualquer tentativa de estabelecer um dia, um ano ou uma cidade precisa de nascimento ultrapassaria aquilo que as fontes permitem afirmar. O silêncio documental, nesse caso, não diminui sua figura, mas recorda que a história de Mateus chegou até nós sobretudo a partir do momento em que sua existência encontrou Cristo.

  Quanto à sua filiação, o Evangelho segundo Marcos apresenta Levi como filho de Alfeu, enquanto o Evangelho segundo Mateus apresenta o homem chamado junto à coletoria simplesmente como Mateus. A tradição cristã identificou essas duas figuras como sendo a mesma pessoa, de modo que Mateus é tradicionalmente conhecido como filho de Alfeu. Entretanto, essa identificação deve ser apresentada como tradição interpretativa, e não como uma informação biográfica explicitamente formulada da mesma maneira nos quatro Evangelhos.

  Seu nome possui uma significação particularmente expressiva. Mateus, relacionado ao hebraico Mattai ou Mattithiah, é tradicionalmente compreendido como nome associado ao dom de Deus. O significado do nome ganha uma ressonância espiritual quando contemplado à luz de sua vocação. Aquele que estava inserido em uma atividade cotidiana passa a reconhecer que sua existência não se esgota naquilo que realiza exteriormente. Há uma profundidade anterior ao ofício, à posição e à reputação, uma interioridade na qual a pessoa pode receber uma palavra que reorienta sua existência.

  Mateus trabalhava como publicano, isto é, como cobrador de impostos. Sua atividade o colocava em uma situação particularmente delicada dentro do ambiente judaico do primeiro século. Os publicanos eram vistos com desconfiança e frequentemente associados aos pecadores nos relatos evangélicos. Nesse contexto, o chamado de Jesus adquire uma força ainda maior. Cristo não se aproxima de Mateus depois que ele tenha apresentado uma vida transformada. O chamado acontece dentro da realidade concreta em que ele se encontra. A transformação começa quando a palavra de Cristo alcança o homem que está ali.

  O Evangelho segundo Mateus apresenta esse momento com uma simplicidade que não permite distrações. Jesus vê o homem sentado na coletoria e lhe diz que o siga. Mateus se levanta e segue Jesus. O movimento exterior é breve, mas interiormente contém uma passagem decisiva. Ele deixa de permanecer voltado apenas para aquilo que já conhece e começa a caminhar segundo uma palavra recebida. A partir daquele instante, sua existência passa a ser compreendida não apenas pelo que havia sido, mas pela direção que encontrou em Cristo.

  O chamado é seguido por uma refeição. Mateus oferece uma refeição em sua casa, e ali muitos publicanos e pecadores se encontram com Jesus e seus discípulos. A cena provoca a reação dos fariseus, que questionam a presença de Cristo entre aquelas pessoas. A resposta de Jesus revela o centro espiritual do episódio. Ele afirma que não são os que estão bem que necessitam de médico, mas os que estão enfermos, e declara que veio chamar os pecadores. A vocação de Mateus, portanto, não aparece como prêmio concedido a uma existência já concluída, mas como ação de uma graça que alcança o ser em sua condição concreta e o conduz à transformação.

  A partir desse encontro, Mateus passa a integrar o grupo dos Doze. Seu nome aparece nas listas apostólicas preservadas nos Evangelhos e nos Atos dos Apóstolos. A partir daí, sua trajetória está unida à de Jesus durante a vida pública, até a Paixão, e ele pertence ao grupo apostólico que testemunha a Ressurreição e permanece reunido depois da Ascensão. O livro dos Atos o apresenta entre aqueles que perseveravam em oração juntamente com Maria, a Mãe de Jesus, e os demais discípulos.

  Pouco sabemos sobre sua personalidade individual durante esses anos. Os Evangelhos não oferecem longos discursos de Mateus nem descrevem extensamente seus pensamentos. Seu testemunho é marcado mais pela permanência junto de Cristo do que pela quantidade de palavras atribuídas a ele. Essa característica permite contemplar sua vocação de maneira particular. Há existências cuja fecundidade não se manifesta por grandes declarações, mas pela permanência junto daquele que foi reconhecido como verdade e origem.

  A tradição cristã relacionou profundamente Mateus ao Evangelho que leva seu nome. A atribuição apostólica desse Evangelho pertence à tradição antiga da Igreja, embora a história de sua composição e a relação entre o apóstolo e a forma literária final do texto sejam objeto de discussão entre estudiosos. A tradição católica manteve a atribuição do Evangelho ao Apóstolo Mateus, enquanto a pesquisa histórica e literária moderna examina com diferentes perspectivas a composição do texto.

  O Evangelho segundo Mateus possui uma característica particularmente significativa para compreender a tradição espiritual ligada ao Apóstolo. Ele apresenta Jesus como aquele que leva à plenitude aquilo que havia sido anunciado anteriormente, conduzindo a história da promessa para seu cumprimento. A palavra recebida encontra continuidade, e aquilo que estava anunciado alcança uma forma nova na presença de Cristo. Nesse horizonte, Mateus aparece como testemunha de uma passagem interior pela qual a existência humana é chamada a reconhecer que sua origem não está encerrada em si mesma.

  Seu passado como cobrador de impostos também confere ao Evangelho uma dimensão contemplativa peculiar. O homem acostumado a registrar valores e transações passa a testemunhar uma realidade que não pode ser reduzida àquilo que pode ser contado ou possuído. A presença de Cristo introduz uma medida diferente no interior da existência. O que antes podia ser compreendido segundo o cálculo passa a ser contemplado segundo o dom. A graça não é uma quantia acumulada, mas uma realidade recebida que transforma aquele que a acolhe.

  Essa transformação não acontece pela negação da história pessoal. Mateus não deixa de ser aquele homem que existiu antes de encontrar Jesus. O passado permanece como parte de sua trajetória, mas deixa de constituir o horizonte definitivo de sua existência. O chamado não apaga a história. Ele lhe confere uma direção nova. O homem que se levantou da coletoria não se tornou outra pessoa por abandonar sua memória, mas por permitir que uma presença mais profunda desse sentido ao caminho que estava diante dele.

  É justamente nesse ponto que sua vida se torna contemplativa. O instante do chamado não é apenas um momento cronológico situado no passado. Ele permanece como uma realidade interior que ilumina todo o caminho posterior. Mateus recebeu uma palavra e respondeu. A resposta tornou-se princípio de uma existência inteira. Aquilo que aconteceu naquele momento continuou produzindo sua forma interior através dos anos, porque uma verdadeira vocação não termina no momento em que é pronunciada. Ela permanece como uma presença que acompanha, amadurece e orienta.

  A tradição antiga atribuiu a Mateus atividade missionária entre os hebreus e posteriormente associou sua pregação a outras regiões. Entretanto, os testemunhos sobre os últimos anos de sua vida são divergentes e não permitem reconstruir com segurança uma biografia detalhada. Também existem tradições diferentes acerca do lugar de sua morte e do modo de seu martírio. Por isso, não é historicamente seguro afirmar uma forma específica de morte como fato incontestável.

  Essa incerteza histórica possui, paradoxalmente, uma dimensão contemplativa. Sabemos muito pouco sobre os últimos passos de Mateus, mas sabemos aquilo que constitui o centro de seu testemunho. Ele foi chamado, respondeu, acompanhou Cristo e pertenceu ao grupo dos Apóstolos. Sua vida conhecida começa a adquirir sua forma decisiva quando se abre à presença de Jesus. O restante permanece parcialmente oculto.

  Na tradição litúrgica da Igreja Latina, São Mateus é celebrado em 21 de setembro. Sua memória permanece ligada ao Evangelho, à vocação apostólica e ao testemunho daquele que passou da coletoria ao seguimento de Cristo.

  Contemplar Mateus é contemplar uma existência que encontrou sua verdade não no prolongamento indefinido do que já era, mas na resposta a uma presença. Seu caminho recorda que o instante pode conter uma profundidade que ultrapassa sua duração exterior. Uma palavra pode atravessar uma vida inteira quando é acolhida no centro da pessoa. O chamado recebido por Mateus tornou-se uma permanência, e essa permanência transformou seu modo de compreender a própria existência.

  A trajetória do Apóstolo também permite perceber que a plenitude não precisa ser compreendida como algo distante, reservado somente ao término da vida. Ela começa quando a pessoa reconhece a origem da qual recebe sua existência e consente em orientar-se por aquilo que recebeu. Em Mateus, esse movimento aparece de maneira concreta. Ele estava sentado, foi chamado, levantou-se e seguiu. Entre esses poucos movimentos encontra-se uma transformação que alcança toda a pessoa.

  Por isso, a memória de São Mateus permanece viva na Igreja. Não apenas porque seu nome está entre os Doze, nem somente porque a tradição o associa a um dos quatro Evangelhos, mas porque sua vocação manifesta uma verdade essencial da experiência cristã. A presença de Cristo encontra a pessoa onde ela está, pronuncia uma palavra que a alcança no íntimo e inaugura um caminho no qual passado, presente e destino podem ser reunidos sob uma mesma direção.

  Mateus permanece, assim, como testemunha daquele momento em que a existência deixa de estar voltada somente para aquilo que possui diante de si e começa a reconhecer aquilo que a chama desde sua profundidade. Seu testemunho não está apenas no que fez depois de seguir Jesus, mas no próprio gesto de ter-se levantado. Ali começa uma nova compreensão do ser. O instante recebido torna-se caminho. O caminho torna-se permanência. E a permanência, amadurecida na presença de Cristo, abre-se à plenitude.

Orando com Apóstolo São Mateus

Chamado à presença

Senhor, acolhe meu coração
Purifica meu interior
Conduze meus passos à presença

Amém

Reflexão sobre a oração

Quando o coração reconhece a presença

  A oração começa no interior, naquele espaço silencioso onde a pessoa pode reconhecer que sua existência não se encerra naquilo que aparece exteriormente. Pedir que o coração seja acolhido significa permitir que toda a pessoa se apresente diante da presença divina sem ocultar sua própria verdade.

  A purificação interior não consiste em rejeitar aquilo que a pessoa foi, mas em permitir que sua existência seja iluminada pela origem de onde procede. Quando a presença divina alcança o íntimo, aquilo que estava disperso começa a encontrar uma direção mais profunda.

  O pedido para ser conduzido expressa uma confiança essencial. O caminho não nasce apenas da iniciativa humana. Há uma presença que antecede, acompanha e sustenta. O instante em que essa presença é reconhecida deixa de ser apenas passagem e torna-se ocasião de encontro.

  A vida de São Mateus ilumina especialmente essa realidade. Ele estava sentado quando ouviu o chamado. Levantou-se e seguiu. A simplicidade desse movimento exterior revela uma transformação interior que não se encerra naquele momento. A palavra recebida permanece atuando no interior daquele que a acolhe.

  A eternidade não aparece como algo separado da existência concreta. Ela pode ser reconhecida na profundidade do instante quando a pessoa percebe que está diante de uma presença que não depende da sucessão dos momentos. O instante torna-se profundo porque nele pode ser reconhecida a origem.

  A oração conduz, então, da dispersão para a interioridade, da interioridade para a presença e da presença para a plenitude. Cada palavra se torna uma abertura para que a existência reconheça aquilo que a sustenta.

  Nesse movimento, o coração não procura simplesmente alcançar alguma coisa exterior. Ele aprende a permanecer diante daquele de quem recebe seu próprio ser. A contemplação nasce dessa permanência e encontra nela sua direção.

  Como Mateus, a pessoa pode descobrir que uma única palavra recebida no interior pode acompanhar toda uma existência. Quando essa palavra permanece viva, o instante inicial não desaparece. Ele continua iluminando o caminho e conduzindo a pessoa para uma realização mais profunda diante de Deus.

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sábado, 19 de setembro de 2026

Santo André Kim Taegon - santo do dia - 20.09.2027

Domingo, 20 de Setembro de 2026
25º Domingo do Tempo Comum, Ano A
Hoje, omite-se a Memória de Santos André Kim Tae-gon, presbítero, Paulo Chóng Hasang e companheiros, mártires




Santo André Kim Taegon - imagem da internet


Biografia de Santo André Kim Taegon

Uma vida entregue à presença de Cristo

  Santo André Kim Taegon, cujo nome coreano é Gim Dae-geon Andrea ou Kim Tae-gŏn Andrea, nasceu em 21 de agosto de 1821, em Solmoe, na região de Dangjin, atual Coreia do Sul. Pertencia a uma família católica ligada às primeiras comunidades cristãs coreanas. Seu pai, Kim Je-jun, também chamado Ignácio Kim Che-jun, morreu mártir pela fé, e seu avô paterno igualmente sofreu o martírio. Sua mãe, Urszula, sobreviveu à perseguição e, segundo o testemunho posterior do Papa Francisco, chegou a viver em extrema pobreza.

  A história de André começa, portanto, dentro de uma fé que já havia aprendido a permanecer sem garantias exteriores. O cristianismo havia chegado à Coreia inicialmente por meio de leigos, antes que sacerdotes estrangeiros pudessem exercer regularmente o ministério. A jovem comunidade cristã encontrava-se privada de uma presença sacerdotal estável e submetida a períodos de perseguição que alcançaram particular intensidade em 1801, 1839, 1846 e 1866. 

  Nesse ambiente, a vocação de André não surgiu como uma decisão isolada. Ela amadureceu dentro de uma tradição familiar na qual a fé era recebida como realidade capaz de atravessar a própria morte. O que seus antepassados haviam acolhido tornou-se nele uma consciência cada vez mais profunda de que a existência encontra sua verdade quando se orienta inteiramente para Cristo.

  Ainda jovem, André foi escolhido para a formação sacerdotal. Em 1836, quando tinha quinze anos, recebeu o batismo e iniciou o caminho que o conduziria ao sacerdócio. Foi enviado para fora da Coreia a fim de estudar e preparar-se para o ministério, tornando-se um dos primeiros coreanos destinados ao sacerdócio. Sua formação exigiu deslocamentos, aprendizado de línguas e contato com missionários estrangeiros, numa época em que retornar ao próprio país significava assumir riscos consideráveis.

  A formação de André não foi apenas intelectual. O estudo da fé, a preparação para os sacramentos e o conhecimento das realidades necessárias ao trabalho missionário foram se integrando numa interioridade que precisava permanecer firme diante da instabilidade exterior. Desde cedo, sua inteligência esteve subordinada a uma finalidade mais profunda, conhecer Cristo para servi-lo e conduzir outros à mesma fonte.

  Durante o período de formação, André auxiliou missionários que procuravam entrar clandestinamente na Coreia. Sua atuação exigia prudência, resistência física e atenção constante. O caminho missionário não possuía a tranquilidade de uma tarefa ordinária. Cada deslocamento podia significar perigo, cada encontro precisava ser cuidadosamente protegido e cada gesto de fé podia ter consequências irreversíveis.

  O Papa Francisco recordou um episódio particularmente expressivo dessa época. Durante uma longa caminhada através da neve, André, exausto e sem alimento suficiente, caiu no chão e correu o risco de morrer pelo frio. Nesse momento, ouviu uma voz que lhe dizia para levantar-se e continuar caminhando. Ao recuperar-se, percebeu aquela experiência como sinal da presença de alguém que o acompanhava.

  Esse episódio permite contemplar uma dimensão essencial de sua espiritualidade. O instante de maior fragilidade não se tornou para André um vazio separado de Deus. Precisamente ali, quando as forças exteriores diminuíam, sua interioridade foi chamada a reconhecer uma presença maior. A caminhada continuava porque sua origem não estava apenas nas próprias forças, mas naquele que o havia chamado.

  Em 1845, André Kim Taegon foi ordenado sacerdote, tornando-se o primeiro sacerdote coreano. Tinha então apenas vinte e quatro anos. Sua ordenação representava a maturação de um caminho iniciado ainda na adolescência e preparado através de anos de estudo, deslocamentos e provações. 

  Seu sacerdócio, entretanto, seria breve. Ao retornar à Coreia, André encontrou uma comunidade dispersa pela perseguição. Precisava aproximar-se dos cristãos de maneira discreta, muitas vezes em segredo. Para reconhecer aqueles que pertenciam à comunidade, recorria a sinais previamente combinados e a perguntas feitas discretamente. O Papa Francisco destacou especialmente a pergunta que André fazia em voz baixa para confirmar a identidade cristã de alguém, perguntando se aquela pessoa era discípula de Jesus. 

  Esse modo de agir revela algo mais profundo que uma simples estratégia de sobrevivência. André compreendia que a fé precisava permanecer viva no interior do ser mesmo quando não podia manifestar-se exteriormente com segurança. A presença de Cristo não dependia das condições favoráveis ao redor. O sacerdote encontrava o cristão na interioridade de uma fé que precisava conservar sua unidade diante do perigo.

  André também trabalhou para facilitar a entrada de missionários e para manter a comunicação entre eles e as comunidades cristãs. Sua atividade sacerdotal estava inseparavelmente ligada ao desejo de que a presença de Cristo alcançasse aqueles que haviam recebido a fé e aqueles que ainda estavam sendo preparados para recebê-la.

  A dimensão intelectual de sua formação também encontrou expressão em sua atividade. Ele não era apenas um homem de ação. A Igreja o recorda como alguém que recebeu formação para o sacerdócio e que possuía capacidade para os trabalhos necessários à comunicação e à missão. Seu conhecimento de línguas e de diferentes realidades culturais serviu à própria finalidade de seu ministério.

  A inteligência, em André, não aparece como instrumento de domínio sobre a realidade. Ela se transforma em serviço da verdade recebida. Conhecer significava aproximar-se daquilo que permanece. Estudar significava preparar-se para transmitir aquilo que havia sido interiormente acolhido. O saber encontrava sua plenitude quando se convertia em testemunho.

  Em 1846, André foi preso. Tinha apenas vinte e cinco anos. Durante o período de prisão, foi interrogado e submetido a sofrimentos. Mesmo diante da possibilidade concreta da morte, permaneceu unido à fé que havia orientado toda a sua formação. A Santa Sé o recorda como o primeiro sacerdote coreano, martirizado naquele mesmo ano, aos vinte e seis anos de idade segundo a documentação litúrgica e canônica que registra sua morte. 

  André foi executado em 16 de setembro de 1846, por decapitação, em Seul. Sua morte aconteceu poucos meses depois de ter exercido o sacerdócio em sua própria terra. A brevidade de sua vida não diminuiu sua fecundidade espiritual. Ao contrário, sua existência tornou-se uma expressão concentrada de uma vida que não mede sua plenitude apenas pela duração exterior.

  Existe, na vida de um mártir, uma compreensão particularmente profunda do instante. André não chegou ao fim de sua existência como quem simplesmente perde o futuro. Sua morte foi acolhida dentro de uma relação com Cristo que já havia transformado o presente. A eternidade não apareceu para ele apenas como aquilo que viria depois. Ela dava densidade ao momento que estava sendo vivido.

  Por isso, sua trajetória pode ser contemplada como uma unidade. O nascimento em uma família marcada pela fé, a formação sacerdotal, os estudos, as viagens, o auxílio aos missionários, o retorno à Coreia, o cuidado secreto dos cristãos, a prisão e o martírio não constituem acontecimentos isolados. Todos convergem para uma mesma interioridade, na qual Cristo se tornou o centro permanente da existência.

  A Igreja reconheceu oficialmente essa fecundidade quando André Kim Taegon foi canonizado por São João Paulo II em Seul, em 6 de maio de 1984, juntamente com Paulo Chong Hasang e seus companheiros. O grupo canonizado compreende 103 mártires coreanos, entre sacerdotes e leigos. André ocupa o primeiro lugar nessa lista e é reconhecido como o primeiro sacerdote coreano.

  Sua memória litúrgica é celebrada em 20 de setembro, juntamente com São Paulo Chong Hasang e seus companheiros mártires. A Igreja contempla nesse grupo a maturação de uma fé que, tendo sido inicialmente recebida e transmitida por leigos, encontrou posteriormente sacerdotes provenientes da própria terra.

  André permanece, assim, como uma figura singular da Igreja coreana. Não apenas porque foi o primeiro sacerdote nascido naquela terra, mas porque sua vida manifesta uma profunda coerência entre origem, vocação, presença e entrega. Ele recebeu uma fé que já existia antes dele, aprofundou-a mediante estudo e formação, levou-a aos outros através do ministério e finalmente entregou a própria existência àquele que havia reconhecido como sua plenitude.

  Sua juventude também possui um significado espiritual particular. André não precisou alcançar uma longa maturidade exterior para que sua vida adquirisse uma forma plena. A densidade de uma existência não se mede simplesmente pelos anos transcorridos, mas pela unidade interior alcançada diante daquilo que se reconhece como verdadeiro.

  Contemplar Santo André Kim Taegon é contemplar uma existência na qual o instante não permanece isolado. Cada momento recebe sua profundidade da origem que o sustenta e do fim para o qual se orienta. A caminhada na neve, o silêncio da prisão, a celebração do sacerdócio e o momento do martírio pertencem à mesma realidade interior, porque em todos eles permanece a presença de Cristo.

  Sua vida recorda que a plenitude não precisa esperar a duração de uma longa existência para se manifestar. Ela pode estar presente quando o ser alcança uma unidade profunda entre aquilo que recebeu, aquilo que contempla e aquilo que entrega. André encontrou essa unidade em Cristo.

  Por isso, sua memória permanece como uma contemplação da fidelidade. Não de uma fidelidade sustentada apenas pela força humana, mas daquela que nasce quando o interior reconhece sua origem e permanece unido a ela. O santo morreu jovem, mas sua vida não permaneceu incompleta. Na entrega final, aquilo que havia começado na fé alcançou sua consumação.

Orando com Santo André Kim Taegon

Oração de entrega

Recebe meu ser em Ti
Firma meu coração na verdade
Conduze meus passos à plenitude

Amém

Reflexão sobre a oração

A presença que conduz

  A oração começa pela entrega do ser, reconhecendo que sua plenitude não nasce do isolamento, mas da união com sua origem.
  Receber a presença divina significa permitir que o interior encontre seu centro e permaneça unido àquilo que verdadeiramente o sustenta.
  O coração firmado na verdade deixa de se dispersar diante da sucessão dos instantes e encontra uma unidade mais profunda.
  Cada passo passa então a possuir uma direção interior, não como movimento vazio, mas como realização progressiva daquilo que já habita o ser.
  A plenitude não aparece somente no termo do caminho, porque sua presença pode ser acolhida no próprio instante em que o caminho é percorrido.
  A oração conduz, assim, da origem à realização, fazendo do presente um espaço interior onde a presença divina pode ser reconhecida.
  Em Santo André, essa unidade tornou-se testemunho de uma vida inteiramente orientada para Cristo, até o momento em que sua entrega alcançou sua consumação.
  A palavra final, Amém, confirma essa entrega e repousa na certeza de que o ser encontra sua verdade quando permanece unido à sua origem divina.

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São Januário (San Gennaro) - santo do dia -- 19.09.2026

Sábado, 19 de Setembro de 2026
24ª Semana do Tempo Comum, Ano Par (II)




São Januário (San Gennaro) - imagem da internet


Biografia de São Januário (San Gennaro)

Um testemunho cuja vida permaneceu inteira diante da eternidade

  São Januário, conhecido em italiano como San Gennaro e em latim como Ianuarius, pertence à geração de cristãos que testemunharam a fé durante as perseguições do Império Romano. Sua existência histórica está ligada sobretudo a Benevento, Pozzuoli e Nápoles, lugares que conservaram a memória de seu ministério episcopal, de seu martírio e de suas relíquias. A tradição cristã o reconhece como bispo e mártir, morto por volta do ano 305, durante a perseguição desencadeada sob o imperador Diocleciano. A Arquidiocese de Nápoles conserva essa memória litúrgica no dia 19 de setembro, data tradicional de seu martírio.

  Os dados sobre seus primeiros anos são muito mais escassos do que a grandeza de sua memória posterior poderia fazer supor. Não possuímos uma data de nascimento historicamente segura, nem existe documentação suficientemente sólida que permita estabelecer com certeza o lugar de seu nascimento. Tampouco os nomes de seus pais foram preservados por fontes antigas que permitam apresentá-los como dados históricos. Essa ausência não diminui sua figura. Pelo contrário, recorda uma verdade importante sobre a santidade antiga: muitas vezes aquilo que permaneceu não foi a história privada de uma pessoa, mas a marca espiritual deixada por sua fidelidade.

  Seu nome, Ianuarius, é um nome latino relacionado a Ianuarius, isto é, ao mês de janeiro, e aparece nas tradições antigas associadas ao bispo e mártir venerado posteriormente como Gennaro. A forma italiana San Gennaro tornou-se inseparável de sua memória em Nápoles, mas a tradição mais antiga o apresenta simplesmente como Gennaro, bispo e mártir. A primeira notícia escrita que chegou até nós com segurança significativa encontra-se em uma carta do presbítero Urânio, escrita em 432, que já apresentava Gennaro como bispo e mártir cuja memória estava profundamente ligada à Igreja de Nápoles. 

  A tradição histórica o relaciona à Igreja de Benevento, onde teria exercido o ministério episcopal. Seu episcopado ocorreu em uma época em que a fé cristã ainda atravessava a instabilidade das perseguições imperiais. Ser bispo naquele período não significava apenas exercer uma função litúrgica ou administrativa. Significava permanecer diante de uma comunidade como testemunha de uma realidade que não dependia da segurança das circunstâncias. O pastor era chamado a conservar uma verdade recebida, a alimentar a vida sacramental dos fiéis e a permanecer inteiro quando a própria existência fosse colocada à prova.

  A tradição sobre seu martírio o associa a uma pequena comunidade de cristãos formada também pelo diácono Festo, pelo leitor Desidério e por outros companheiros. Segundo os antigos relatos preservados, Januário dirigiu-se a Pozzuoli e ali encontrou cristãos que estavam sofrendo perseguição. O contexto era o da grande repressão contra os cristãos promovida durante o governo de Diocleciano. A tradição afirma que Januário foi preso juntamente com seus companheiros e conduzido diante das autoridades.

  É precisamente nesse ponto que a vida de Januário adquire sua densidade espiritual. O martírio não aparece simplesmente como o término de uma existência, mas como a revelação definitiva daquilo que havia orientado toda a existência. A fé, que durante os anos anteriores podia ser professada por meio da palavra, da oração, da celebração e do cuidado pastoral, tornou-se então uma permanência integral. O instante da prova revelou a unidade interior de uma vida que não havia separado aquilo que acreditava daquilo que estava disposta a viver.

  Os relatos tradicionais descrevem diversas etapas de sua prisão e de sua condenação. A tradição napolitana conserva particularmente a memória de sua execução na região de Pozzuoli, junto à atual Solfatara, por volta do ano 305. A data de 19 de setembro é muito antiga na tradição litúrgica e aparece em calendários cristãos antigos, entre eles o Calendário Cartaginês e o chamado Martirológio Jeronimiano.

  A morte de Januário, compreendida pela Igreja como martírio, não é contemplada simplesmente como uma derrota diante da violência. O mártir é aquele cuja existência se torna testemunho de uma realidade que ultrapassa o instante da morte. A morte permanece verdadeira, dolorosa e irreversível no plano humano, mas não consegue determinar o significado último daquela vida. O testemunho do mártir afirma que a existência possui uma origem mais profunda do que suas circunstâncias e um destino que não se encerra naquilo que os sentidos conseguem apreender.

  Nessa perspectiva, o episcopado de Januário e seu martírio formam uma única realidade espiritual. O bispo que ensinava a fé tornou-se, no momento decisivo, aquele que a confirmou com a própria vida. Sua teologia não chegou até nós principalmente por tratados ou escritos extensos. Sua linguagem foi a própria existência. Seu corpo entregue, sua permanência diante da provação e sua fidelidade tornaram-se uma espécie de palavra silenciosa, na qual a fé não precisava mais ser explicada para ser reconhecida.

  Depois de sua morte, o corpo do mártir foi sepultado em uma localidade chamada Marciano, provavelmente nas proximidades da região de Agnano. Posteriormente, durante o episcopado de São João I de Nápoles, na primeira metade do século V, suas relíquias foram trasladadas para Nápoles e depositadas nas catacumbas que mais tarde receberiam o nome de Catacumbas de São Januário. A documentação arqueológica e histórica confirma a antiguidade desse culto e a importância que a memória do mártir adquiriu na Igreja napolitana.

  Essa passagem das relíquias para Nápoles possui um significado que ultrapassa a simples mudança de lugar. A memória de Januário começou a unir-se profundamente à própria identidade religiosa da cidade. A Igreja de Nápoles reconheceu nele não somente um mártir vindo do passado, mas uma presença espiritual cuja memória continuava a orientar a oração da comunidade. Seu nome atravessou gerações porque sua vida havia sido compreendida como testemunho de uma realidade que o tempo não podia dissolver.

  As catacumbas tornaram-se, assim, um espaço privilegiado da memória cristã de Nápoles. O corpo do mártir permanecia como sinal de uma existência que havia passado pelo sofrimento sem encontrar nele sua última palavra. A veneração das relíquias não se dirigia simplesmente à matéria, mas à pessoa cuja vida havia sido consagrada a Deus e cuja morte era compreendida à luz da ressurreição.

  Ao longo dos séculos, o culto de São Januário ultrapassou os limites de Nápoles. Sua memória difundiu-se para outras regiões e permaneceu associada de maneira especialmente intensa à cidade napolitana. O antigo culto foi sendo enriquecido por celebrações, trasladações, procissões e pela veneração das relíquias. A Arquidiocese de Nápoles registra que o culto do bispo beneventano martirizado em Pozzuoli já estava profundamente estabelecido na cidade nos primeiros séculos do cristianismo. 

  Entre as relíquias veneradas encontra-se o sangue conservado em ampolas, cuja liquefação é tradicionalmente observada em determinadas celebrações ao longo do ano. A Igreja de Nápoles trata esse fenômeno no âmbito da devoção religiosa e da celebração da memória do mártir, sem reduzir sua significação à dimensão material do acontecimento. A própria celebração contemporânea continua a apresentar as relíquias do sangue como parte central da solenidade de São Januário. (Chiesa di Napoli)

  A tradição relacionada ao sangue de São Januário adquiriu especial importância a partir da Idade Média. A documentação histórica registra manifestações desse fenômeno desde 1389, enquanto sua devoção se desenvolveu ao longo dos séculos em íntima relação com a vida litúrgica de Nápoles.  O significado espiritual dessa tradição, porém, não precisa depender de uma explicação exterior. Para o olhar da fé, a relíquia remete antes de tudo à pessoa do mártir, e a pessoa remete ao testemunho de uma vida oferecida a Deus.

  O sangue, nesse contexto, torna-se uma linguagem profundamente ligada ao cristianismo. Ele recorda a vida entregue, a existência que não se fecha sobre si mesma e o testemunho que atravessa a morte. Em São Januário, a memória do sangue não pode ser separada da memória de sua fidelidade. O que permanece não é simplesmente uma matéria venerada, mas a recordação de um homem que entregou a própria existência àquele em quem havia colocado sua esperança.

  Há uma particular profundidade na maneira como a Igreja contempla os mártires. Eles revelam que o instante não precisa ser compreendido apenas como aquilo que passa. Existe um modo de viver o instante em que a pessoa inteira se concentra naquilo que reconheceu como origem e destino. O momento do martírio, então, não acrescenta uma verdade estranha à vida do santo. Ele manifesta, de maneira definitiva, a verdade que já havia orientado sua existência.

  Januário foi bispo, mas sua grandeza não está simplesmente no título episcopal. Foi pastor porque antes se deixou formar interiormente pela fé que deveria transmitir. Foi mártir porque a verdade recebida não permaneceu exterior a ele. Foi venerado porque sua existência se tornou transparente para uma realidade maior do que sua própria história. A santidade, nele, aparece como uma unidade entre aquilo que se contempla, aquilo que se professa e aquilo que se vive.

  Sua figura também conduz a uma compreensão mais profunda da permanência. O tempo passou sobre seu corpo, sobre as comunidades que o conheceram e sobre as estruturas históricas em que viveu. Impérios desapareceram, cidades foram transformadas, gerações nasceram e morreram. Entretanto, a memória de seu testemunho continuou sendo celebrada. Não porque o passado possa simplesmente ser repetido, mas porque uma vida entregue à verdade pode continuar produzindo presença muito depois de seu desaparecimento histórico.

  A história de São Januário possui, por isso, uma força contemplativa singular. Ela não convida apenas a olhar para o passado. Convida a perceber que uma existência alcança sua plenitude quando encontra aquilo que a ultrapassa sem destruí-la. O santo não deixa de ser homem ao entrar na eternidade. É precisamente sua humanidade, atravessada pela fé, que se torna testemunho de uma realidade maior.

  O martírio de Januário permanece como um instante definitivo porque nele a vida inteira parece concentrar-se. O bispo, o pastor, o cristão e o mártir não são figuras separadas. Há uma única pessoa cuja existência encontrou sua forma plena na fidelidade. O instante final não apaga os anos anteriores. Ele os reúne. Tudo aquilo que havia sido vivido em oração, serviço, ensino e testemunho encontra naquele momento sua expressão última.

  É nesse sentido que São Januário permanece espiritualmente próximo da Igreja. Sua memória não pertence somente ao passado. Ela participa da oração presente porque aquilo que foi vivido com plenitude não se reduz ao tempo em que aconteceu. O testemunho do santo continua convocando a interioridade a retornar à origem, a reconhecer a presença de Deus e a compreender que a vida encontra sua verdadeira consistência quando não se fecha sobre aquilo que passa.

  São Januário permanece, assim, como bispo e mártir, mas também como testemunha da passagem da existência pela eternidade. Sua vida não nos é conhecida em todos os detalhes. Conhecemos pouco de sua infância, de sua família e de seus primeiros anos. Conhecemos muito mais claramente a marca que deixou na memória da Igreja. Essa desproporção possui uma beleza própria. Nem tudo o que uma pessoa vive precisa ser conservado pela história para que sua existência alcance plenitude.

  O que permaneceu de Januário foi suficiente para que sua memória atravessasse dezessete séculos. Seu nome foi pronunciado na liturgia, seu corpo foi venerado, suas relíquias foram guardadas, seu martírio foi celebrado e sua presença espiritual tornou-se profundamente associada à Igreja de Nápoles. A história registra as trasladações de suas relíquias e a continuidade de seu culto; a contemplação percebe, através delas, algo mais profundo, a permanência de uma vida que encontrou sua origem em Deus e nele encontrou também seu termo.

  A Igreja celebra o mártir porque reconhece nele uma vida que não terminou na morte. O dies natalis do santo, entendido como o dia de seu nascimento para a vida eterna, transforma a lembrança da morte em contemplação da plenitude. São Januário não é recordado simplesmente porque morreu no século IV. É recordado porque sua morte foi compreendida como consumação de uma existência orientada para Deus.

  Por isso, contemplar São Januário é contemplar a fidelidade que atravessa o instante sem se perder nele. É reconhecer que uma vida pode tornar-se inteira quando sua origem e seu destino permanecem unidos. É perceber que a santidade não consiste em escapar da condição humana, mas em permitir que a existência seja inteiramente penetrada pela presença daquele que a chamou à plenitude.

  O sangue conservado, o nome celebrado e a memória litúrgica são sinais exteriores de uma realidade interior. Eles apontam para uma vida que foi oferecida. Apontam para um homem cuja existência encontrou sua unidade na fé. Apontam, finalmente, para o mistério de uma vida que, tendo atravessado a morte, permanece inscrita na memória da Igreja porque foi recebida na eternidade de Deus.

Orando com São Januário (San Gennaro)

Um testemunho cuja vida permaneceu inteira diante da eternidade

  Senhor, reúne meu ser
  na luz da tua presença
  conduz-me à plenitude

  Amém

Reflexão sobre a oração

A interioridade diante da presença

  A oração começa pedindo que o ser seja reunido. Existe, nessa súplica, uma percepção profunda de que a interioridade pode dispersar-se entre pensamentos, desejos e movimentos passageiros, enquanto a presença divina permanece como centro silencioso.

  Ser reunido é retornar à origem sem abandonar o instante. É permitir que aquilo que existe encontre novamente sua unidade diante de Deus. A oração não pede simplesmente uma mudança exterior, mas uma concentração interior capaz de reconhecer aquilo que sustenta a própria existência.

  A luz da presença divina não é apenas aquilo que ilumina de fora. Ela alcança o interior e revela nele uma profundidade que não depende da sucessão dos acontecimentos. Quando a pessoa se volta para essa presença, o instante deixa de ser apenas passagem e torna-se abertura para uma realidade que permanece.

  O pedido final, conduz-me à plenitude, completa esse movimento. A plenitude não aparece como algo acrescentado à existência, mas como sua realização mais profunda. A oração conduz o ser para aquilo que ele procura desde sua origem, uma unidade na qual presença, interioridade e eternidade deixam de parecer realidades separadas.

  Assim, rezar é permanecer diante de Deus até que a existência reconheça novamente de onde procede e para onde tende. O instante torna-se então lugar de encontro, e a vida encontra repouso não naquilo que passa, mas naquele que permanece.

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